segunda-feira, 10 de maio de 2021

Ser dos Grandes em Trás-os-Montes

 


Os Três Grandes. Churchill, Roosevelt & Stalin | Amazon.com.br

Como a maioria da população portuguesa, os transmontanos são em 98% (também) dos “Três Grandes”. Os outros 2% são de outras equipas – como o Vitória de Setúbal (como todos sabem, o clube de coração do meu saudoso Pai), do Belenenses (sobretudo os que conheceram a capacidade dos do Restelo além-Mar na década de 1950, como o meu saudoso primo Filinto Cabral), ou do Académica de Coimbra (reminiscências de uma Briosa de entrega estudantil e de manifesto de liberdade política antes de Abril). Outros clubes também caberão nestes 2%.

O Transmontano benfiquista sabe que é adepto do clube português cuja marca é mais conhecida além fronteiras. A soma do passado incontornável em que o Benfica pisava a Europa enxuta – vingando-os - quando muitos portugueses a pisavam enlameada nos bairros de lata dos subúrbios de Paris ou do Luxemburgo com a soma dos valores orçamentados atualmente contribuem para essa grandeza. Como tenho percorrido os diversos continentes, reconheço que o nome “Benfica” é o mais facilmente identificado na abordagem aos clubes portugueses -para lá dos nomes-marca Ronaldo ou Mourinho (que uso para me apresentar ‘Mourão means a very very big Mourinho’). O Benfica de Lisboa tinha a particularidade de levar o adepto benfiquista a visitar a capital, naquela peregrinação antes bissextina e agora quase mensal, e sobretudo a visitar a Catedral, num sentimento de igualdade perante o ribatejano ou o alentejano. Paga quotas para algo que é alimentado a 400 quilómetros mas vivido na mesa daquele café, naquela arritmia que sabe partilhada por milhões anónimos. Entre o tal passado de uma glória de topo mundial até às intermitências dos últimos quarenta anos, vive como aforrista – com o capital do passado, juros baixos no presente, e liquidez reduzida.

O transmontano portista vê no FCP o orgulho céltico do homem do Norte. Homem de trabalho que valoriza mais o músculo suado do que a barriga em digestão. Incontornavelmente, a geração baby-boomer (a nascida com o fim do conflito colonial) encontrou no FC Porto o brio de uma região Norte que se impôs no desporto profissional mundial desde 1980, atingindo, dentro das limitações de recursos da própria área e do país não ser um Big-5, o reconhecimento que muitas vezes lhe era negado. Se o Porto deu nome ao país, o FCP e a liderança de quarenta anos criaram uma mística familiar próxima da do transmontano que, curiosamente, nem sempre encontrou na área metropolitana do Porto a valorização que os proprietários durienses de oitocentos encontraram nos salões da Foz. No entanto, a alma festiva das noites europeias era partilhada com a mesma força para cá do Marão como o era na Asprela. Se o benfiquista transmontano incarna o aforrista, o portista da região assemelha-se ao impaciente – tem o seu património apoiado em M1 e em M2, isto é em dinheiro corrente e em depósitos à ordem. Sem paciência porque desde que a capital desceu para Coimbra no Século XII que o norte só no futebol tem trazido capitalidade para um país obcecado a olhar para o mar, virando as costas aos montes.

O transmontano sportinguista não é aforrista nem investidor. Sabe pertencer a uma minoria que dispensa alaridos, festejos ou congestões. Se outros esperam, eles agradecem o tempo que chega. No fundo, juntam ao sentimento transmontano o sentimento sportinguista, uma certa saudade do futuro que chegará, não tão depressa como para os outros, mas que chegará. Um pouco como a mãe que espera, atrás do postigo, pelos filhos emigrados. Seja a mãe aristocrata, seja a mãe humana. É difícil para outros juntar estas duas grandezas? É. Mas por isso quando chega – o título, o filho emigrado, o parente regressado das colónias – o triunfo é diferente. Como aquela flor de cacto das rudezas em redor do Cachão da Valeira que aparece uma vez em cada dúzia de anos. Aparece. E é flor.

quinta-feira, 4 de março de 2021

A Bazuca transmontana

 

Recentemente, o relatório da edição portuguesa da Rede Europeia contra a Pobreza auscultou a evolução nos principais indicadores de distribuição do rendimento pelos municípios portugueses. O distrito de Vila Real oferece um mosaico relevante para o analista económico que se preze. Se, por uma via, o município de Vila Real tem indicadores que o aproximam deveras dos valores encontrados na faixa litoral do país, por outra via apresenta outros indicadores – como o rácio dos rendimentos mais altos sobre os mais baixos – que pertence ao top-10 do país. Como ainda recentemente analisei num artigo com Alexandre Junqueira, (publicado no Sustainability) o aumento da desigualdade de rendimentos, muito bom para uns e muito mau para outros, tende a estar associado a aumento da insegurança do património dos cidadãos e a uma ameaça significativa a um dos bens mais importantes de todos – a tranquilidade. Regiões onde a diferença entre os que ganham muito e os que ganham menos é muito significativa são regiões que atraem o interesse de quem não interessa. As razões são várias. Uma delas é que, em cenários de crise social latente – como a que vivemos – não é o pai de família que ontem ficou desempregado que amanhã vira ladrão. Mas, muitas vezes, esse pai de família que funcionava como silenciador social de muitos dependentes, deixa de o conseguir em situação de desemprego, fazendo com que os dependentes, por vezes, em redes de fragilidade social, passem a pedir ou a importunar os cidadãos de áreas ou concelhos vizinhos. Não será pois coincidência o aumento de notícias que dão conta de detenções por motivos de assalto ou de roubos perpetrados nos concelhos do nosso interior.

Neste cenário de segundo confinamento generalizado que vivemos, reforço o aviso que deixei no primeiro. Importa deslocar a nossa atenção, até eventualmente a parca poupança que forçadamente não pudemos gastar pelas limitações de mobilidade, para as empresas locais, para o comércio local, para o investimento local. Se não podemos circular, que pelo menos a nossa boa-vontade – e se possível, o nosso dinheiro - circule. Exemplos começam a surgir vindos de universitários que organizam bancos alimentares para apoiar colegas em fragilidade. Outros exemplos devem ser replicados, nomeadamente a atenção dos municípios para os seus empresários – não basta a redução ou a moratória do pagamento de rendas, não basta a dependência da bazuca que dificilmente aqui chegará com a força da primeira rajada. Impõe-se o desenvolvimento de canais que possibilitem a circulação dessa “poupança forçada”, a sustentabilidade dos empregos em risco, a preservação dos negócios nas lojas, o apoio ao empreendedor local, o recurso à empreitada vizinha. A própria sociedade – nós, no fundo – temos de reagir. Quantos de nós ligaram ao comerciante encerrado por razões epidémicas? Quantos de nós pensámos em como dinamizar a sua atividade ainda que sem a proximidade habitual? Quantos de nós conseguimos ajudar muitos dos nossos empresários com a burocracia tão estranha que lhes é pedida para ficarem na fila dos apoios? Quantos de nós preferimos verdadeiramente evitar que a região vire uma longa rua devoluta?

 

O mito da “bazuca” que vai resolver os problemas do país - Jornal Tornado

Nestas alturas, momentos de crise económica, só há uma regra. Que é fazer o que se deve fazer. Se, por um lado, a região ainda não percebeu o choque que outras – como o Minho, por exemplo – já sentem, muito se deve à dependência dos rendimentos locais dos salários públicos e das transferências sociais. No entanto, a dinâmica que gera autonomia dos empregos na região, que leva ao investimento que é ainda feito por aqui e que, no fundo, nos evita depender cada vez mais de quem pode cada vez menos connosco (basta ver a quantidade de Ministros e/ou Secretários de Estado que o distrito tem conseguido nos últimos governos) – a dinâmica da iniciativa empresarial - tem ficado cada vez mais estiolada com os confinamentos generalistas (que não premeiam as regiões ou os municípios que se comportam com maior prudência) e com o desequilíbrio ameaçado na distribuição das bazucadas apregoadas. A região tem uma força – resiste sempre. Mas também sente. E percebe quando a vão esquecendo, ainda que dos outros não se esqueça, pagando impostos e emprestando ao litoral

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Reis na República das Bananas

 


 

 

 

Assim como a escravidão foi o sistema laboral dominante em três quartos da história civilizacional, a monarquia foi o regime dominante em período próximo. Ainda que os continentes não comunicassem, ainda que as culturas fossem profundamente endógenas, a ideia natural de um rei hereditário, algo herdada do evolucionismo biológico, foi algo que a espécie humana adoptou para regular as comunidades.

O debate entre regimes republicanos ou monárquicos (e dentro destes entre absolutistas/teocráticos e constitucionalistas) é já longo e não o vou aqui espraiar. No entanto, se uma das grandes virtudes era a da preparação dos aristocratas para a tomada de decisão – desde o berço que uns eram preparados para reinar e outros para serem governados – uma das grandes limitações prendia-se com a aleatoriedade genética que acabava por prender os eleitos a casamentos políticos, ao fardo do governo, e à herança da antipatia da turba popular quando eram herdeiros de déspotas pouco iluminados.

Mas durante milhares de anos a espécie humana pareceu aceitar bem esta herança cultural. Uns nascem para reinar, para viver, para dominar, para reproduzir. Outros nascem para serem governados, para sobreviver, para pedir, para consentir. Se é verdade que todos temos como antepassados 5 a 10 por cento dos eleitos aristocráticos, também temos de massa genética entre 90 a 95 por cento de servos da gleba.

A polémica em torno da vacinação de uns em detrimento de outros ressuscitou estes fantasmas na República Portuguesa, território milenar que em 90% da sua idade foi um Reino. Curiosamente, a menos que a nobreza fosse generosa (e havia também nobreza generosa) e que o clero local fosse ativamente assistencial (também o houve), a maioria dos servos da gleba contentava-se com a pobreza da terra consentida pelos enfiteutas e rezava para que o senhor local não abusasse em demasia dos seus poderes de patrão-alfa a macho-alfa.

Mas, quando uns, os mais débeis correm o risco de ficar sem vacinas porque outros – os mais nobres – ficam à frente, pergunto-me quais as razões que imperam nesta luta pela sobrevivência. Serão eles os mais bonitos que importa preservar para a espécie não degenerar? Serão eles os mais ricos que importa preservar para que o progresso não estiole? Serão eles os mais cultos que importa nutrir para que a civilização não se perca? Serão eles os detentores de ‘pedigree’ para nos garantir prémios nos concursos de beleza canina ou de pureza de raça ariana? Serão eles os nossos que importa defender para que os nossos genes perdurem? Ou serão eles os “nossos” que importa vacinar para que o nosso partido não se rompa?

Como acuso no livro “Economia do Esquecimento”, temos um país preconceituoso. Hoje, em 2021, descobrimos que as élites nos andam a aldabrar desde 1910 – a Monarquia continua, a Aristocracia reina, pois enquanto uns governam, outros se governam. Enquanto uns se servem, outros são servidos. Resta o resto da maralha à espera dos despojos enviados pelas costas abaixo do castelo.