A Presidência Portuguesa do Conselho Europeu acontecerá
entre 1 de janeiro de 2021 e 30 de junho desse ano. Portugal recebe-a da
Alemanha e passa-la-á à Eslovénia. O lema deste trio de Presidências assenta na
urgência da ação, dirigida para uma recuperação justa, verde e digital.
Obviamente, quando detalhamos os documentos de suporte a
este lema, encontramos lá, desde logo, o foco na economia, mas também nos
direitos sociais, na sustentabilidade e na aposta nos recursos de ponta
tecnológica. No fundo, traves-mestras do desenvolvimento europeu desde há
muito. Sendo-o há muito, espera-se que, perante os desafios da pandemia e da
vacinação associada, estas dimensões possam ganhar repercussões mais visíveis,
pelo menos na perceção do cidadão comum do espaço europeu.
No entanto, quando escrutinamos com maior detalhe as ideias
implícitas em tal lema, somos confrontados com questões maiores. Questões como
a distribuição dos rendimentos mas também com a distribuição do usufruto dos
direitos dos europeus – na medida em que, como a pandemia nos tem vindo a
mostrar, a detenção de rendimento pode não ser suficiente para a efectivação do
usufruto dos direitos correlacionados, nomeadamente restrições à mobilidade,
limitações de consumo ou controlo de distribuição de bens pode não beneficiar a
todos por igual. Aqui, portanto, coloca-se numa posição maior o desafio sério
de levar a Europa a redescobrir o sentido de justiça social, quer dentro dos
Estados-membros quer entre os próprios Estados-membros, onde dimensões como a
afetação dos fundos comunitários (quer os de natureza estrutural quer os de
natureza cíclica ou de emergência) tem mostrado uma Europa com clivagens
profundas e ainda não sanadas de todo. Por outra via, a Presidência Portuguesa,
condicionada pelo clima destas vagas posteriores da pandemia e pelo
aparecimento da massificação da vacinação, tem a possibilidade de chamar a
atenção para uma redefinição quer dos consumos quer das estruturas de produção,
em muitos casos pouco sustentáveis se não geradoras de malefícios de saúde
pública visíveis a prazo. A tal recuperação verde que aparece no lema pode, no
entanto, não passar do papel e das boas-intenções quando, muito provavelmente,
a generalidade das receitas de recuperação económica passará pela reativação
das empresas e indústrias mais volumosas e com maior peso nos empregos de cada
país, ficando a aposta na sustentabilidade mais uma vez condicionada pela
urgência – nalguns casos majorada pela aproximação eleitoralista – de recuperar
empregos e rendimentos para os europeus. Finalmente, a aposta no digital – que
teve um estímulo fortíssimo no último semestre pelas razões da necessidade de
confinamentos sociais e laborais – será, a meu ver, o pilar menos difícil de
alcançar progressos mais significativos. O confinamento tirou as pessoas da rua
mas a necessidade social de comunicação ficou valorizada. O digital acelerou as
respostas a essa necessidade mas também levou a uma atenção de novos espaços –
os novos espaços rurais com acessibilidade digital, o desenvolvimento do
trabalho em rede digital, as vídeo-chamadas, a perceção de que os recursos
digitais são um indicador soberbo da desigualdade moderna. Essas novas
perceções colocam desafios que a Presidência Portuguesa poderá aproveitar para
inculcar uma assinatura própria.
Agora, em termos de ganhos nacionais, as Presidências têm o
condão de trazer um pouco mais de luz e espaço mediáticos para os locais de
acolhimento, para lá de gastos específicos que podem ajudar no efeito
multiplicador nacional. Assim, quer Portugal, quer as instituições Portuguesas,
terão uma voz com reforço de alcance, mas também uma visibilidade dilatada do
sucesso – ou do insucesso – perante as expectativas iniciais. Conseguirá, por
exemplo, o Governo socialista de Costa, minoritário, passar uma imagem tão
forte como aquela que Merkl passou neste último semestre, imagem inclusive de
interesse para outros governos socialistas na Europa? Conseguirá, ainda, Portugal
aproveitar a ocasião para mostrar uma capacidade de condução do controlo
pandémico mais perto do alcançado na primeira vaga do que na segunda da
pandemia? Conseguirá Portugal reforçar posicionamentos estratégicos – dentro e
fora da Europa – perante os desafios interiores e exteriores do Espaço Europeu
e do próprio Euro? Nomeadamente, perante o grande desafio que vou tocar de
seguida – o do Brexit? Desejo, enfim, que no dia 30 de junho tenhamos uma
Europa mais saudável, mais próspera e mais humana do que aquela que receberemos
a 1 de janeiro de 2021.
O Brexit
Diversas estimações foram realizadas relativamente ao custo
do Brexit, desde focadas em realidades nacionais até às implicações da economia
global. Não me vou deter nesses valores pois só um trabalho rigoroso de
meta-análise o possibilitaria condensar. Pretendo destacar que o mesmo
apresenta custos mas também algumas oportunidades para os Portugueses. Os
principais custos, além de todos os custos alfandegários, de mobilidade e de
transações associados, prendem-se, ainda, com questões como a proteção
diferenciada de propriedade, gestão diferenciada das negociações empresariais e
ainda com a diminuição esperada no PIB inglês, estimada em redor dos 2%, devido
ao Brexit. As oportunidades são as esperadas para quem vive no ‘lado de
comércio livre’ – maior atratividade nos preços relativos mas também maior
agilidade no estabelecimento de ligações comerciais com parceiros afastados do
mercado britânico. Há quem reconheça que praças como Madrid, Paris ou Frankfurt
poderão ter a sua centralidade financeira reforçada, como portas de entrada de
investimento para o espaço Euro, impulsionada pela previsível desvalorização da
libra. Para Lisboa, os cenários de incerteza não são displicentes. A longa
História de relações com a velha Albion tem vacinado os portugueses para as
mudanças de humor britânico, havendo a capacidade de um relacionamento estável,
nos fluxos humanos, económicos e financeiros. Estável mas não espetacular pois
desde também há muito que a perceção de que os referidos fluxos poderiam ser
mais significativos e balanceados se instalou no lado português. De qualquer
modo, a previsível redução das importações britânicas relativamente aos produtos
portugueses somada com os custos migratórios poderá levar a um choque de curto
prazo nos referidos valores – algo que a tempo, como a História o tem mostrado,
poderá ficar como choque absorvido.