quinta-feira, 29 de outubro de 2020

===Quando o atual SISTEMA do SNS explica a pandemia===




Começo este texto como o terminarei – se os meus Amigos o desejarem, partilhem estas linhas à vontade.
Os números da pandemia do Covid19 dispensam os meus comentários que durante mais de 150 edições do “Diário de Guerra” foram partilhados com centenas de leitores assíduos. No entanto, debaixo de tantas leituras tão controversas, de tantos estudos, “estudos” e ‘estudos’ publicados, divulgados, comentados, encomendados e escutados, tenho de partilhar a história de um amigo e do seu filho testado à Covid19. A história deles ajuda a explicar como quando o Sistema funciona como está a funcionar contribui mais para a proliferação da doença do que para a sua continência. Porque, quando o Sistema funciona mal, para um cidadão, para a sua família, para as suas expectativas e, sobretudo, para o seu apoio, outros cidadãos, outras famílias, outras expectativas e outros apoios deixam de considerar o referido Sistema. E quando assim é, por mais repressão em ameaça, é o vício no Sistema que alimenta mais o vírus.
O filho do meu amigo acordou numa terça-feira com sinais associados à mono-doença dos nossos dias: dor de garganta, dor de cabeça, sensação de febre e aparente dificuldade em respirar normalmente. A esposa do meu amigo, mãe do jovem, ligou para o famoso número do Sistema 808242424 (deveria ser do SERVIÇO Nacional de Saúde, aliás um marco histórico de Portugal, mas é cada vez mais uma figura do SISTEMA). Poderia ter ligado para uma clínica privada ou para um médico no sector privado. Mas ligou para o famoso número. A família do meu amigo esperava que o Sistema fosse Serviço, que providenciasse uma consulta prévia. Mas o Sistema disse-lhes para irem para a porta de um Centro de Saúde, num início de tarde, chuvoso e frio. Quando lá chegaram foram informados de que aquele espaço não era o espaço que o Sistema tinha localizado, pois as funções de triagem tinham sido deslocadas para outro espaço, na outra ponta da cidade. Foram para a outra ponta da cidade na hora de ponta que é qualquer hora de almoço. Quando lá chegaram, novamente a portaria a céu aberto, novamente filas de espera, com outros utentes, cidadãos mascarados, ansiosos, doentes ou adoentados. Indicaram-lhes novo espaço onde esperaram duas horas para serem atendidos. Realizaram o teste por zaragatoa ao jovem, ainda menor, sem deixarem a mãe – acompanhante, acompanhar o filho. Adultos desconhecidos, mas do Sistema, pediram o número de telemóvel ao jovem adoentado que cedeu e que confiou. Regressaram à casa com paracetamol, ibuprofeno e anti-histamínico. Viram-lhe a garganta? Nada disso, auscultaram-no ao longe, talvez exigência protocolar, talvez cansaço ou despacho. Isto foi na terça-feira.
No dia seguinte, quarta-feira, o jovem não melhorou com paracetamol, ibuprofeno e anti-histamínico. Pelas 14 horas, a família, naturalmente ansiosa, recebe um telefonema do Sistema. O teste tinha dado ‘Inconclusivo’. Era necessária nova zaragatoa. Estavam disponíveis? Sim, estavam todos disponíveis, recolhidos numa pré-quarentena de quem é responsável e acredita que estando infetado pode infetar, com os compromissos todos suspensos. Nova testagem, novo regresso a casa, novas portas encerradas, a ansiedade a aumentar, o estado do jovem sem melhorias com paracetamol, ibuprofeno e anti-histamínico.
A seguir a quarta-feira, ainda que em eras pandémicas, vem a quinta-feira. Como os resultados do primeiro teste tinham demorado cerca de 25 horas a serem comunicados, a família do meu amigo esperou 24, 25, 30 horas por um telefonema da Unidade de Saúde do Sistema coletor. A tarde de quinta-feira terminava, o estado de saúde do jovem tinha estacionado, o clã recolhido à espera do telefonema libertador ou definidor. Nesse fim de tarde de quinta-feira, o telefone de casa tocou. Era do Sistema. O Sistema pedia que se visitasse um ‘site’ e que o jovem queixoso introduzisse informações várias sobre o seu estado de saúde, desde se tinha tosse, febre, dificuldade em respirar, etc etc E resultado da testagem? O Sistema respondeu – Não temos… mas o prazo normal vai até às 48 horas após a coleta. A família do meu amigo resignou-se à espera.
Sexta-feira houve um telefonema de manhã por parte da Unidade de Saúde do Sistema coletor. A família do meu amigo correu para o telefone. E uma voz, uma voz do Sistema, colocou-os logo em sentido, como as vozes do Sistema sempre fizeram ao longo da História: “Como estão?” Estamos à espera. E a voz sentenciou… pois, mas não temos aqui o resultado. Quem tem? O Sistema, afinal sem ser omnisciente, não sabia. Talvez vá parar ao Médico de Família…mas ele também ainda não o tem…
Veio o Sábado, veio o Domingo. Debalde, o meu amigo e a mulher ligavam para a Unidade de Saúde do Sistema mas o Sistema não trabalha ali aos fins-de-semana. Silêncio. Por vezes, o silêncio do Sistema é mais aterrador do que a sua prepotência. Tantos combatentes das ditaduras o sabem e o contam. Quem faz este silêncio? São os do Sistema ou os que o combatem? Ou é o próprio Sistema a interrogar-se se ainda faz sentido.
Vidas suspensas há quase uma semana receberam a segunda-feira num misto de angústia, indefinição, raiva. Sim, porque nestas alturas o cidadão que tem dignidade sente raiva, vontade de rasgar uma folha e escrever novo texto, aquela vontade de pegar nos mesmos tijolos e dos muros fazer uma casa, algo belo, indiscutivelmente algo melhor. Para ele e para os outros.
Era meio-dia de segunda-feira quando alguém, talvez a Décima-Quarta voz do Sistema, ligou. O segundo teste ao jovem – que entretanto melhorara com paracetamol, ibuprofeno e anti-histamínico – tinha dado negativo. As vidas foram regressando ao normal, lentamente, no meio de declarações necessárias para os trabalhos e escolas do meu amigo e família, entregas, algumas simpaticamente digitalizadas, outras nem simpaticamente nem digitalizadas.
O meu amigo e família confinaram-se, perderam dinheiro, ganharam cabelos brancos. Aparentemente, a história aqui contada com duas semanas de atraso acabou bem. Este pedaço de história nesta história louca maior que ainda nos envolve com capítulos cujo desfecho desconhecemos ainda e que serão lidos no futuro. Mas o meu amigo e família tiveram paciência, responsabilidade, ou respeito. Se o meu amigo e família fossem outros meus amigos e famílias, sem paciência para suspenderem vidas, negócios, almoçaradas, turismo, beijinhos, abraços e outras cópulas sociais, teriam saído para a rua, teriam continuado os seus negócios, até teriam infetado outros no caso de serem positivos sintomáticos ou assintomáticos. Porque muitos passam ao desrespeito quando não se sentem respeitados. E, sem dúvida, o Sistema tem desrespeitado os cidadãos, atribui-lhes as culpas todas sem perceber que muito dos contágios vem do mau funcionamento de cada 'Sistema de Saúde' espalhado pelo mundo.
Querem outros exemplos de como os sistemas corrompem? A evasão fiscal não é filha da imoralidade dos contribuintes mas da corrupção do sistema fiscal. A precariedade laboral não é filha da ganância dos empresários mas da corrupção das leis do trabalho. O subdesenvolvimento não é culpa dos nativos, índios ou indígenas, autóctones ou locais, mas dos sistemas de distribuição de rendimentos nacionais e internacionais. Portanto, a culpa é dos sistemas corrompidos, como aliás o Papa Francisco o acusa amiúde.
Eles sabem que a culpa é do Sistema que deveria ser Serviço. Que consome profissionais de saúde, que desumaniza muitos deles, que esgota outros. Que faz de políticos figuras patéticas que querem legislar e impor debaixo de tantos estudos publicados ao minuto de sentidos tão contraditórios (o que também mostra a que ponto a Ciência, a Medicina e a Academia chegaram, e escrevo-o sendo eu um Académico!) Contei ao meu amigo a história do velho Joad, o Avô Joad, das Vinhas da Ira do Steinbeck, que queria matar uma coisa abstracta chamada Mercado que mandava noutra coisa igualmente despersonalizada chamada Banco lá longe que mandava nos homens que desapossavam as terras dos pequenos agricultores do Oeste americano na década de 1920.
Uma coisa é certa – o Sistema, o tal Sistema – que um dia foi Serviço Nacional de Saúde, que trouxe uma revolução social na democratização da valorização da Vida a todos os cantos deste país, que foi de Pessoas e para Pessoas - será o grande derrotado desta história no final. O tal Sistema impessoal, longínquo, desapossado, desumano. E com ele, todos aqueles que lhe ficarem colados. Será o nosso Darth Vader, que um dia já foi Jedi.
Se os meus Amigos o desejarem, partilhem estas linhas à vontade.

sábado, 17 de outubro de 2020

Ricos, loucos e destemidos sem máscara

 

Sim, porque sois assim? – é esta a pergunta que metade da sociedade faz à outra metade que não quer andar ou usar máscara, que quer falar livremente nas esplanadas e dentro dos cafés, que quer mandar tantas restrições, até agora sem eficácia visível, às urtigas, ou aonde as haja.

 

Esta pergunta é respondida pelos governos europeus com mais repressão, com mais confinamento e com mais dúvidas e incertezas. Vamos fechar-vos em breve em casa, vamos obrigar-vos a correr mascarados para as compras, a ter aulas à distância, enquanto os hospitais – públicos e privados – conseguirem vazar as pressões de tantos utentes com necessidades de cuidados intensivos. Depois de mais uma vaga de repressão, em que usamos a sociedade como mais uma cobaia de ensaio, notaremos que sabemos cientificamente tanto em outubro como sabíamos em março ou em abril, dando espaços abertos, enormes e abertos, a teorias de conspiração, de oposição, de revolta moral e de resistência cívica. Parece que é isto que tantos governos, por esse mundo fora, nos dizem hoje.

 

No entanto, a Economia, enquanto ciência do comportamento, ajuda a responder a esta pergunta. Porque são assim? Porque uns roubam e outras ficam a ver? E porque uns matam enquanto outros são mortos? Porque uns corrompem e outros se deixam corromper? Porque uns ganham e outros perdem? A resposta é simples – porque assim escolheram. E enquanto ninguém nos mostrar que perdemos mais com as escolhas feitas do que ganhámos, continuaremos a apostar naquela casa na roleta, naquela terminação, naquele partido, naquela crença, naquela ideia. Uns roubam porque acreditaram que compensava roubar, outros mataram porque julgaram que nunca seriam sentenciados ou que nunca iriam para um inferno apregoado por outros. Uns corrompem porque acreditam que só assim conseguirão dar mais bem-estar àqueles que lhes são próximos, borrifando de desinteresse todos os outros. Uns escravizam porque acreditam que assim conseguirão mais feitos enquanto outros desprezam porque acreditam que assim se sentirão melhores. Uns mandam outros para campos de concentração porque assim terão uma sociedade mais limpa. Uns correm para o álcool para suportar isto tudo enquanto que outros pegam numa arma para estoirar de vez com este mundo. Fazem-nos porque são malucos? Não, fazem-no porque são racionais, julgando que o que fazem é bem feito. São assim, foram assim criados, transtornados ou formados? Talvez, mas fazem-no porque são tão racionais como um italiano na noite de 17 de julho de 1994 o foi, um dos italianos mais talentosos a cobrar grandes penalidades – Roberto Baggio – que decidiu atirar a bola para o ponto cego de um Cláudio Taffarel cansado quase 180 minutos jogados de uma final, para o ângulo das 13h. E esse italiano, com uma proporção alta de eficácia na cobrança de grandes penalidades, atirou para a bancada superior do Rose Bawl, dando o título a uma seleção canarinha que jogava com o cinismo dos transalpinos. Baggio acreditou que faria bem; passados oito segundos depois de ter recuado oito passos para iniciar a corrida de ensaio, percebeu que fez mal. Arrependeu-se? Talvez. Mas percebeu que tinha escolhido mal, que tinha arriscado e que tinha perdido.

 

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e chapéu

 

Será que a repressão, as multas, a vigilância policial, ou a divulgação de vídeos nas redes sociais apontando infratores, desleixados e despreocupados fará com que eles coloquem as máscaras, com que se distanciem dos outros, com que não sejam agentes eventuais de contágio eventual? E sobretudo fará com que a brutalidade desta segunda vaga não gere mais incertezas, medos e complexos na outra metade? Baggio percebeu a desilusão. Uns podem até perceber infernos, mais tarde. Enquanto isso, eles aí andam – sem máscara, conversando, quase pornograficamente, com a alegria que nós quereríamos ter. Nessas alturas, lembro-me daquela frase do Adam Smith, em Teoria dos Sentimentos Morais, algo como “Como admiro os ricos, os loucos e os destemidos – porque mesmo que morram nos seus consumos, loucuras ou impulsos mostram-nos – a nós, os sobreviventes - que a nossa vida simples pode ser sempre um pouco diferente.”

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Lutar contra a Pandemia e pela Economia


Um dos papeis mais importantes que se espera de cada um de nós, como resposta social e económica, ao Covid-19, é sermos responsáveis, mas também solidários. Responsáveis com os outros. Solidários com todos. Mantendo a distância de segurança, tornando o nosso capital e a nossa poupança em investimento e consumo hoje, evitando a caridade suplicada de amanhã ou o imposto forçado depois de amanhã.
Obviamente, não basta consumir, nem é bom consumir por impulso. Aumentar o consumo forçadamente não é suficiente, pois nem as estruturas aquisidoras – nomeadamente, os consumidores – têm armários em casa para comprar cinco fatos de uma vez ou quarenta quilos de arroz para a quinzena. Numa escala macroeconómica, o consumo ajusta-se às capacidades de usufruto. Esquecê-lo é perceber pouco de Economia.
Temos de recuperar a confiança, quer como consumidores, mas sobretudo como investidores. E aí o Estado pode ajudar. O Estado, quando cria canais ágeis para a canalização das Poupanças, transformando-as em Investimento, ajuda mais do que quando aumenta a tributação ou quando ilude os contribuintes com impostos disfarçados. Por exemplo, quando auxilia na criação de Bancos Locais e Comunitários de Desenvolvimento, ajuda a que eu possa intervir na participação social das empresas da minha região – um instrumento que ainda não existe devidamente em Portugal, como refleti com o Wiliam Retamiro, no artigo “Community development banks (CDB): a bibliometric analysis of the first 2 decades of scientific production” publicado na prestigiada Environment,  Development and Sustainability.
Em vários debates sobre o assunto por estas semanas -onde participei -referi isto claramente. Muitos negócios, muitas empresas, muitos investidores precisam de liquidez, precisam de capital, precisam de ‘dinheiro vivo’. Podem esperar pelos impostos que subirão e que nos apertarão de modo especial no futuro próximo? Nós podemos esperá-lo mas muitos destes pequenos comerciantes, investidores locais e microempresários não conseguirão chegar lá. Portanto, receitas de antigamente não bastam. Mais Estado, neste caso, pode conduzir a uma sovietização da economia e a transformarmos a nossa Economia congelada numa Economia de Retro-Transição.
Por outra via, há instrumentos de financiamento alternativo que pela sua natureza são sobretudo geridos por entidades de dimensão maior. Refiro-me ao financiamento por obrigações, pelas quais não sou ‘sócio’ mas torno-me credor do negócio. Quantas vezes, no passado recente, o Estado tem ficado mais atrativo do que os depósitos bancários, debaixo das taxas de juro negativas (onde, no final, pagamos para termos o dinheiro no banco…) Como analisei com Joanna Stawska, no Applied Economics, no trabalho “Governments as bankers - how European bonds have substituted bank deposits”, a subscrição de Obrigação e Bilhetes do Tesouro tornou-se mais apetecível para muitos investidores europeus que deslocaram para o Estado o dinheiro que tinham nos bancos. O mesmo deveria acontecer, com a possibilidade dos negócios locais poderem entrar nos mercados obrigacionistas, algo que já existiu em escala alargada – desde entidades como confrarias religiosas chegando a clubes desportivos e municípios. Enquanto esperamos, continuemos a lutar!

terça-feira, 26 de maio de 2020

Cem anos, uma vida, muitas vidas, muitos anos mais!




Paulo Reis Mourão
(Professor do Departamento de Economia da Universidade do Minho)

O SCVR celebrou 100 anos! Parabéns! Um clube celebrar 100 anos é o reflexo do somatório de muitos dias dedicados e noites mal-dormidas de muitas pessoas – desde o ato fundador até aos dias de hoje.
A grandeza de um clube como o Bila vê-se na medida em que é muito difícil escolher-se alguém da região (residente ou não em Vila Real) e essa pessoa não ter tido um contato mais ou menos próximo com o clube, um contato mais ou menos apaixonado, um contato mais ou menos intenso. Ou escolher-se alguém e esse alguém não ter uma mão-cheia de histórias (ou uma editora repleta de histórias) envolvendo o clube, sobretudo o principal património do clube – as pessoas.
A grandeza do clube mais antigo da região vê-se em muitas dimensões. Em primeiro lugar, uma instituição associativa sobreviver 100 anos é, academicamente falando, só possível pelo triângulo da sustentabilidade – sustentabilidade da massa associativa e da sua renovação, sustentabilidade dos ‘stakeholders’ (isto é, os que beneficiam diretamente e indiretamente com a ação do clube) e sustentabilidade institucional (desde a presença de fluxos financeiros que têm garantido a sobrevivência do clube até ao relacionamento institucional, nacional e internacional).
100 anos representam milhares de dias somados e multiplicados pelos milhares de sócios, defuntos ou militantes, com quotas em dias ou quotas em liquidação. Cada sócio do Bila, povoando os encontros das diversas modalidades desde os santuários do Calvário ou do Monte da Forca até os demais recintos espalhados pelo mundo, é um sócio único. Mulher ou Homem, do Marão ou do Alvão, da Bila ou da região, Menino da Bila ou da Guia, sem idade. Conhece o vernáculo mas sabe escolher as palavras e os momentos. Músculo tenso, garganta aflita. Lágrima no vidro dos olhos – às vezes, cai dentro, noutras, cai fora dos mesmos olhos. Como bola na linha de golo – às vezes, cai dentro, noutras cai fora. O sócio do Bila tem o xamanismo de um celtibero mas o trágico dos mouriscos; o sócio do Bila vem daquela cepa de infanções que Afonso Henriques sabia que só aqui encontraria e que mais tarde Dom Pedro de Menezes levou para olhar sobranceiro o Atlas. O sócio do Bila em qualquer lugar do mundo está em casa.
100 anos representam muitos atletas. Milhares de atletas. Hoje também é o dia de todos eles – desde os que descansam no Olimpo dos grandes exemplos de humanismo, desportivismo e solidariedade – até os que hoje militam com essa camisola alvi-negra. Desde os mais novos até aos mais velhos. Pode alguém carregar o sonho, a frustração, a dor e a vitória de uma terra obstinada, resistente, saudada? Pode; esse alguém é o jogador alvi-negro.
100 anos representam muitas gerações de diretores, funcionários, colaboradores e voluntários. Hoje é o dia de todos eles! 100 anos representam muitas palavras trocadas, passes bem e mal feitos, bolas atrasadas ou adiantadas, mensagens perdidas, mensagens alcançadas. 100 anos é um tributo também a todos eles – desde os que deram a vida pelo Clube até àqueles a quem o Clube deu vida.

sábado, 28 de março de 2020

O Covid19 e a resposta atual da Comissão Europeia

Na sequência do anúncio da Presidente da Comissão Europeia, na passada sexta-feira, do pacote de medidas para mitigar os efeitos económicos do Covid19 na Europa, destaco 3 linhas de debate: levantamento da ‘regra do défice’, o que não tem tanto de keynesiano como pode parecer, acentuação das Políticas de Emprego necessárias e aposta do Orçamento Europeu na Saúde, no Emprego e nas Empresas (isto é, na Saúde e na Economia no imediato, ficando aparentemente as outras Políticas Sociais e o Estado Social em expectativa...) Sobre estas 3 linhas de ação, deixo 3 comentários muito breves. 1) neste cenário de Economia de Guerra isto permite aos Estados gastar mais. Obviamente, vamos pedir também mais responsabilidade aos Estados, sobretudo para gastar bem e para gastar connosco. Com certeza vai haver prioridades na afetação e nos grupos visados, mas este levantamento da regra do défice tem um limite natural - a capacidade dos Estados em termos de liquidez fiscal, isto é, até ao momento os Estados faziam despesa corrente suportada na receita corrente dos últimos 5 a 6 meses mais a emissão de dívida de curto prazo. Como sabemos, Estados com dívida baixa tem naturalmente mais liquidez (um pouco como a proporcionalidade das reservas de tesouraria das grandes empresas); Estados com dívida alta tem menor capacidade de liquidez o que pode colocar em cena situações próximas das que tivemos em 2009... Daí que alguns economistas como eu tenham pedido emissões de Eurobonds para suportar este endividamento mais que necessário 2) Se o sinal das políticas públicas for o de promover o Emprego, à partida os estímulos escondidos ao desemprego (quer na Procura quer na Oferta) ficam atenuados no texto - no entanto receio que não o fiquem na prática pois tenho sido informado de muitas empresas que vão aproveitar a situação - o que infelizmente era previsível - para fechar portas. Sempre aconteceu nestes cenários de guerra e pandemia, assim como - também devemos recordar - o crescimento futuro foi uma evidência (...o importante é sobreviver para chegar a essa terra prometida...) 3) foi anunciado um Reforço do Orçamento Europeu nas áreas expectáveis, mais pressionadas - Saúde e Economia. Aqui levanto algumas reservas pois também em pandemias e guerras houve muita gente a crescer alicerçada no Estado. Basta recordar como os monopólios industriais norte-americanos cresceram sempre com as guerras, basta recordar como ainda que valendo 3% do PIB europeu, o Orçamento Europeu acomoda sempre mais facilmente os interesses do eixo Paris-Frankfurt e basta lembrar como alguns comem sempre à frente dos outros. #fiqueemcasa■

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O Bico do Pato e a Eutanásia


Agora que os 5 projetos em votação foram aprovados, eu – que se tivesse tido a possibilidade de votar ou de responder em Referendo sobre o assunto – teria votado pelo “Não”, e depois de responder a alguns jornalistas sobre o assunto, refiro que entre ‘deja vu’ e evidência estatística, podemos esperar o seguinte:
Primeiro) a “Procura” por Eutanásia, assim como a “Procura” pela IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez) ou a “Procura” pelo Divórcio (em 1911!) seguirá a “Lei do Bico do Pato” ou a “Lei de Poisson” – com um crescimento anormal nos primeiros tempos de exercício livre e depois uma estabilização em patamares que, sendo superiores aos atuais, serão bem menores que o da reação imediata. Assim foi com o Aborto, assim foi com o Divórcio, assim foi sempre que se liberalizou algo que antes estava significativamente restrito.



Segundo) o Debate foi – ao contrário de há dois anos – bem mais esclarecedor, menos cinzento e mais colorido. Sem dúvida que as forças do Não tiveram (e têm) hoje uma expressão mais audível, lúcida e moderna do que então. O timing de oportunismo político mostra que os derrotados de há dois anos aprenderam a calendarização parlamentar e como bons maquiavélicos, nada como ser impopular no início para no esquecimento do tempo final aparecermos como melhores.
Terceiro) Os novos Direitos não obrigam ninguém. Obviamente tal locução é ingénua no conteúdo mas também na substância. A pobreza de uns, o isolamento de outros, a demência de terceiros e o oportunismo de quartos vão obrigar muitos a optar pelo fim à vista. Mas também a todos nos responsabilizam, na mesma medida que como Santo Isidro já referia, no Aborto a Mulher é a maior vítima porque a mais pressionada pelos que antes dela não quiseram a Vida a nascer; também aqui o cidadão que pede a eutanásia, na sua liberdade, responsabiliza especialmente toda a sociedade que, vencida por fins utilitaristas (benvindo São John Stuart Mill!!!) o foi privando, pouco a pouco, da leitura positiva que outros beberam da vida – eventualmente, os mais ricos, os mais densos em redes sociais e os mais urbanos e litoralizados.
Quarto) Os médicos, enfermeiros, profissionais de saúde, assistentes sociais e, no fundo, todos nós teremos de refletir nas posições éticas e deontológicas. A escapatória da objeção de consciência ou a negação da prática associada à ‘morte assistida’ levará a que outros tenham mais procura, lucros e influência. E aqui o Estado terá um papel importante a trazer equilíbrio a estas práticas de concorrência monopolística emergentes em todos os mercados caraterizados por restrições éticas.
Quinto) Ao longo da História das Civilizações, sempre se conviveu com eutanásias mais ou menos mascaradas. Inclusivé, o fim de Sócrates poderia ser colado em certa medida a esta tensão. Ou então os abafadores que Miguel Torga descreve nas suas Montanhas. Como sempre se conviveu com Abortos e com Divórcios. Qual o mal pois de mais esta liberalização? Nenhum, se em breve aceitarmos natural que o porte de arma seja liberalizado, se a pena de morte regresse e se aceitarmos como natural que uns valem mais do que outros na respiração do oxigénio, um bem cada vez mais escasso, aliás. Porque, não haja dúvida, de que a despenalização reduz custos à prática associada, logo fica mais ‘barata’ e ainda que ninguém seja obrigado a adquirir tal serviço ou produto, existe uma propensão, pela Lei dos Grandes Números, para o mesmo acontecer em maior frequência. Portanto, amanhã o Sol nascerá na mesma e aí recordarei o meu Pai que na sua juventude de 59 anos partiu desejando viver cada minuto daquela vida que para muitos não o era. Cada um tem as lições que pode e o estigma que recebe.